29/12/2014

Qual é o seu estilo? (Parte 1)

O universo automotivo é fascinante, pelo menos para nós, e isso não é exatamente uma novidade, mas nos últimos tempos o assunto "customização" vem sendo turbinado por sites especializados, no cinema e programas e séries de TV (viva o Discovery Turbo!!).
Esse momento proporcionou coisas boas aos aficionados: mais eventos, mais fabricantes, aumento do mercado, etc...
Por outro lado, coisas não tão boas também: preços mais altos, conceitos deturpados, perda da essência, etc.
Neste contexto, resolvemos vamos falar um pouco sobre conceitos e estilos,  veremos que o assunto não se limita apenas a questão de gosto (se fosse isso nem iriamos fazer este post), envolve importantes aspectos culturais, sociais e comportamentais do dono e sua tribo.
Ainda assim, fica um prévio aviso, nem tudo que será escrito deve ser entendido como "lei", nada é tão acadêmico ou definido por conceitos rígidos, no fim é a "paixão" e "gosto" que manda...
Então vamos lá; 
Hot Rod: Vamos começar pelo começo. Este movimento foi criado no século passado, durante a década de 1940.
Nesta época a sociedade americana estava muito impactada pela segunda guerra mundial, que sugou quase todos os recursos financeiros e materiais do país.
Por isso pouca gente tinha dinheiro para comprar um carro novo, a oferta de modelos e quantidade era muito limitada e a indústria não tinha como apresentar novos projetos.
Esse cenário levou os jovens a começarem a modificar os carros disponíveis, normalmente das décadas de 1920 e 1930, com mecânica atualizada, da década de 1940. 
Era comum trocar a mecânica original por um V8 mais potente, independente da marca, para garantir um "estilo" mais agressivo usava-se rebaixar o teto (chamado "Chopp the roof"), colocar pneus traseiros largos e abaixar a altura do carro com modificações de chassis e suspensão. Pintura e estética eram menos importante porque custavam caro. 
Após o final da guerra, os jovens soldados retornaram com pressa em retomar suas vidas, porém se ainda havia pouca grana, sobrava força de vontade e criatividade. A dificuldade virou o combustível do movimento.
Os costumes e hábitos dos jovens da época (música, roupa, cortes de cabelo, estilo de vida, comida, etc) acabaram se incorporando ao mundo dos carros, a partir daí desenvolveram-se muitos estilos e sub-estilos.
Ao longo deste tempo, até os dias atuais, muita coisa mudou (evolução??), mas podemos dizer que a essência foi mantida, dá para cravar que o movimento Hot Rod foi mesmo o gênesis de tudo.
Kustom: No início o termo "Kustom" ou "Custom" era usado para os "Hot Rods" fabricados após 1949, carros modificados na aparência (teto rebaixado, estilo mais limpo) e no desempenho (pneus maiores, motores potentes). 
Hoje este termo é normalmente utilizado para os carros modificados fabricados no pós guerra, a partir da década de 1950, mas foi ficando mais abrangente até virar um movimento cultural, envolvendo traços comuns da personalidade e estilo de vida.
Os membros desta tribo são chamados de "Rodders", aerografia, pin-ups, pinstriping, tatuagem, roupas, música (rock e rockabilly), são outras características do movimento.
Atualmente, o movimento parece estar recuperando a sua força, um dos traços mais marcantes da "Kultura Kustom" continua sendo mostrar o oposto a cultura consumista e material da sociedade moderna.
Neste post tem muito mais sobre o tema...
Rat Look: Se No início do movimento "Hot Rod" dissemos que o foco era a performance e não o visual, aos poucos isso foi mudando com a profissionalização das empresas de customização.
Porém, parte dos praticantes manteve-se fiel até hoje ao conceito original. O termo "Rat Look" (Visual de Rato no português livre) ou "Rat Hod" tem como referência o personagem "Rat Fink" criado por Ed Roth, que tornou-se um dos maiores ícones do movimento "Hot Rod". 
A aparência rústica do carro é mantida, somente peças da época são utilizadas e não se dá importância a nada "supérfluo", isso quer dizer; forração interna, sistema de som, bancos confortáveis, rodas reluzentes, etc.
Uma "regra" importante; Para os mais puristas até os processos de fabricação e ferramentas tem que ser iguais aos que os pioneiros utilizam, das décadas de 1940 e 1950!
Muita gente pode torcer o nariz para o estilo, mas o fato é que para quem é entusiasta e não tem muitos recursos, é um ótimo e divertido caminho para chegar ao seu "Hot Rod".
Rusted Look: São carros no estilo "enferrujado", geralmente modelos fabricados a partir de década de 1950 e 1960.
Na verdade, o termo gera muita confusão com o estilo "Rat Hod", pois o resultado final são carros rebaixados com a aparência desgastadas, até com ferrugem.
O que vale é manter a aparência original do carro, apenas desgastada pelo tempo, pois o essencial é preservar a personalidade do carro, sua história.
Se for para utilizar acessórios (rodas, bagageiros, por exemplo) só se forem da mesma época do carro, para os apreciadores do estilo quanto mais enferrujado e desgastado o carro estiver, ficará mais bonito! 
O que vemos com frequência são carros (e motos) com visual invocando a essência "Rat Look", mas por baixo mecânicas modernas, potentes e confiáveis.
Estas características permitem muita criatividade nas adaptações, mas aqui invocamos o "bom senso" para não tornar o resultado final ridículo. 
Muscle Cars:
 Aqui seria até um assunto para um capítulo a parte, mas vai uma rápida introdução. 
São carros de fabricantes americanos (Ford, Chevrolet, Pontiac, Dodge, Plymouth, etc) produzidos do início da década de 1960 até meados dos ano 1970. 
Mas apenas os modelos que utilizavam enormes motores V8 (acima de 4.000 cc), já com muita potência de fábrica, barulhentos e, detalhe, sem nenhuma preocupação com o consumo de combustível (A Greta que me desculpe...).
Nesta época a gasolina era muito barata nos Estados Unidos, havia enorme euforia econômica e nada melhor do que um muscle cara para curtir as estradas longas e novas...
Esse cenário social influenciou o desenvolvimento de modelos imponentes, potentes e beberrões, que foram mortalmente feridos com a crise do petróleo dos anos 1970. De novo aspectos sociais e econômicos se misturando com a cultura automotiva.
No Brasil tivemos fabricados apenas os Dodge (eu tenho o meu, e você?), Galaxie, Landau e Mavericks, que até hoje deixam saudades em muita gente. 
Ah, sinto muito, respeitamos demais o Opala 4.100, mas não é um Muscle Car (faltam 2 cilindros)!
Um Street Machine by Troy
Street Machine e Street Hod: Aqui dois exemplos de estilos com interpretações variadas e que mudaram ao longo dos anos...
Ao que parece, atualmente, os "Street Machine" são os modelos de carros, geralmente muscle cars, customizados com o que existe de melhor e mais moderno em termos de técnicas e peças.
As receitas deste conceitos de customização normalmente incluem a adaptação de motores modernos e muito mais potentes (v8 injetados, com superchargers, etc), freios e suspensões redimensionadas, modificações sutis no visual e, principalmente,  uma pintura caprichada com cores e efeitos exclusivos. Um interior exclusivo e poderosos sistemas de som e vídeo também são bem vindos.
Podemos citar como exemplos os carros produzidos por customizadores famosos como Chip Foose, Boyd Condington ou Troy Trepanier, que como ícones do assunto acabam cada um tendo seu estilo próprio
Street Hod by Chip Foose
Já os "Street Hods" seguem quase o mesmo conceito de customização, mas normalmente refere-se aos modelos de 
carros produzidos antes do meio da década de 50, com o visual mais ligados aos modelos do pré-guerra.
É fato que o resultado final destes projetos acabam se assemelhando mais a obras de arte do que carros, por isso muitos puristas torcem o nariz porque são carros que valem centenas de milhares (ou até milhões) de dólares, então são mais vistos em exposições do que nas ruas. 
Por hora é só, ainda temos muita coisa para falar, aqui tem mais...

02/12/2014

Abarth - O Escorpião Italiano

Karl Abarth Alberto nasceu em 15 de novembro de 1908, Viena, Áustria, começou a sua carreira aos 16 anos projetando bicicletas e chassis de motocicletas. Aos 19 anos voltou para a Áustria e começou a trabalhar para a “Motor Thun Motorcycles” preparando motos de competição e como piloto de testes.  
Nesta época um dos pilotos de fábrica adoeceu e Karl teve oportunidade de pilotar em seu lugar, o resultado do teste foi ótimo (para desgosto dos outros pilotos) e Abarth conseguiu a volta mais rápida por duas vezes consecutivas. Este bom resultado não se repetiu no dia da corrida devido uma falha mecânica. Karl suspeitou de sabotagem e deixou a “Motor Thun”.
O gosto pelas corridas veio para ficar, aos 20 anos (29 de julho de 1928) em Salzburg veio a primeira vitória, Karl comprou uma motocicleta britânica usada e fez diversas melhorias e reduções de peso. Foi um resultado surpreendente, considerando que ele concorreu sem apoio de fábrica e  sem assistência mecânica. No ano seguinte, 1929, nascia a primeira motocicleta a usar o nome Abarth.
Em 1930, Abarth sofreu um grave acidente em Linz, na Áustria, isso o levou a abandonar o motociclismo individual (ou solo). Em 1933 ele construiu um sidecar e ficou famoso por ter competido contra o “Orient Express” em um trecho de 1.300 km, de Viena a Ostend. Na primeira tentativa ele foi prejudicado por uma falha elétrica e perdeu a corrida por 15 minutos, duas semanas depois fez a segunda tentativa e venceu o trem expresso, com 20 minutos de sobra.
Todo este ímpeto foi freado por um segundo e mais grave acidente, em 1939, numa corrida na Iugoslávia que o deixou internado por um ano! Foi o final da carreira de Abarth como piloto de corridas.
Após a segunda guerra mundial, Abarth voltou para a Itália e mudou seu nome para o Carlo Desom, ele restabeleceu contato com amigos de uma família chamada “Porsche”, tornando-se representante italiano do estúdio de design Porsche.  
Um rico industrial da época e então presidente da Juventus Football Club, Piero Dusio, financiava um piloto de grande sucesso chamado Tazio Nuvolari, que vencia quase tudo a bordo do seu Cisitalia D46. 
Cisitalia 360
Dusio encomendou para Abarth e Rudolf Hrushka (ex-engenheiro da Porsche) um novo e revolucionário carro monoposto; Cisitalia 360. O projeto era muito avançado para a época, tinha um sistema de tração nas quatro rodas complexo, motor twin-supercharged de 1.493 cc, 12 cilindros flat e produzia mais de 300 cv (em 1947!).
Tanta complexidade acabou com as finanças de Dusio e a Cisitalia faliu, em 1949, sem que o 360 tenha de fato competido. Carlo também estava financeiramente fragilizado, então juntou o que sobrou e fundou a “Abarth & C. SRL” em 31 de março de 1949, o logo da empresa veio do signo astrológico de Karl – Escorpião.
A Abarth criou a sua própria equipe de corrida - "Squadra Abarth", por ela passaram nomes famosos como Tazio Nuvolari, Luigi Bonetto, Cortese, e Duberti. Na Mille Miglia de 1949 ficou em segundo lugar na sua classe e quinto lugar geral, o Abarth 204 A Roadster venceu o campeonato italiano e o título Fórmula 2. No mesmo ano, a bordo de um Abarth 204 A Spider, Tazio Nuvolari conquistou a sua ultima vitória na subida de montanha de Palermo-Monte Pellegrino. 
Para ajudar com os custos das corridas, a Abarth começou a desenvolver e comercializar peças e componentes especiais. Em 1950, desenvolveram uma série de escapes e através de uma campanha de marketing inovadora venderam mais de 4.500 unidades. A Abarth já empregava mais de 40 pessoas. Em 1962, as vendas globais chegaram a quase 260 mil unidades, ao longo deste período foram estabelecidas muitas parcerias com montadoras; Alfa Romeo, Maserati e Ferrari.
Com o lançamento do Fiat 600 em 1955, Carlo Abarth viu a oportunidade de criar um carro esportivo pequeno a preços acessíveis. Utilizando o 600 como base introduziram diversas melhorias e conseguiram mais do que o dobro de potência do carro original com um motor de 750cc, o carro fez muito sucesso entre os entusiastas. A empresa também lançou kits de conversão (cassetta di trasformazione) para converter modelos Fiat padrão em esportivos, os kits não eram baratos e eram entregues em caixas de madeira, incluiam: virabrequim, comando de válvulas, pistões e anéis, coletores de escape, radiador, carburador, escapamento, filtros, tubulações, correias, ferramentas, óleo, emblemas cromados e instruções.
O sucesso nas pistas continuava, na 24ª edição da Mille Miglia em 1957, havia 20 carros representando Abarth na classe 750 cc, 16 destes terminaram a corrida conseguindo o primeiro, segundo e terceiro lugares. Em 1958 a Abarth começava a distribuir seus carros nos Estados Unidos.
As vitórias continuaram na década de 60; primeiro na classe em sua primeira participação
oficial nas 24 Horas de Le Mans (Junho de 1961), campeão em torneiros de Carros de Turismo Europeus em 65, 66 e 67. Em 1965 foram contabilizadas quase 900 vitórias nas pistas e rallyes ao redor do mundo!
Todo este sucesso teve um custo, a empresa que era mais focada em vitórias do que no lucro foi obrigada a fundir-se com a Fiat em agosto de 1971 e a equipe foi comprada por Enzo Osella. A Abarth tornou-se o departamento de competição da Fiat, comandada pelo famoso engenheiro designer Aurelio Lampredi. O sucesso continuou com segundos lugares nos campeonatos do mundo de 1973, 74 e 75 e uma histórica vitória no Rally de Portugal de 1974.
Infelizmente em 23 de outubro de 1979, aos 71 anos, Carlo Abarth perdeu a corrida para uma grave doença, deixando como legado 10 recordes mundiais, 133 recordes internacionais e mais de 10.000 vitórias.
Por questões estratégicas e organizacionais a empresa foi perdendo espaço no grupo FIAT. Porém, em 2007, o Grupo Fiat relançou a Abarth & C SpA com instalações novas no complexo de Mirafiori, em Turim, para desenvolver projetos junto com o Abarth Racing Team. Esta nova fase já produziu joias como o Punto Abarth S2000 , Grande Punto Abarth e o 500 Abarth.
Que este sucesso continue por mais 100 anos!